!DOCTYPE html PUBLIC "-//W3C//DTD XHTML 1.0 Transitional//EN" "http://www.w3.org/TR/xhtml1/DTD/xhtml1-transitional.dtd"> Calma Penada: Maio 2006

Calma Penada


«O optimismo é uma preguiça do espírito». E. Herriot. + «Uma assombração que se preza não pode ser preguiçosa. Buuuh!». O Fantasma do Misantropo.


quarta-feira, maio 31, 2006

A Empresa e a América

Um viveiro de políticos, a sociedade de investimentos na bolsa Goldman Sachs. Depois de ter dado a esta Administração o actual Chief of Staff, que por lá é pasta ministerial importantíssima e não mera chefia de gabinete, como deu aos Democratas um Secretário do Tesouro, Rubin, e um Senador Federal e corrente Governador de New Jersey, Corzine, fornece agora o novo comandante das finanças do Gabinete, Paulson. Nenhuma novidade, que ele já fora o vice de James Baker, quando este Ocupou a Secretaria do Tesouro, ainda na administraçãp Reagan. Mas esta nova peripécia no vaivém imoderado entre o sector da alta finança e o da política norte-americana, com uns pozinhos de ambientalismo prestigiante à mistura, terá como principal consequência fazer subir as cotações da empresa de que sai e do governo em que entra.
O resto pouco conta. Quem manda é o Presidente da Federal Reserve.

terça-feira, maio 30, 2006

Dois Palmos à Frente

Não há jornalista que não repita que o movimento Hamas trava uma guerra em duas frentes, na Cisjordânia, contra Israel e em Gaza, contra a presidencial Fatah. Não é mentira, mas, dados os opositores, tudo se pode reduzir ao que aconteceu em muitas outras guerras, um inimigo externo e um do interior, sempre suspeito de colaboração com o inimigo. E todos esquecem uma terceira força, porque muito menos impressionante em número e protagonismo - a Jihad Islâmica, dirigida de Damasco, mas com inplantação não desprezível em Gaza. É, quanto a mim, este o principal obstáculo ao sim do partido no governo da Palestina ao referendo sobre o reconhecimento de Israel. O receio de que lhe façam o que ele fez à força anteriormente dominante, se lhes deixarem a apropriação do radicalismo. Não é por acaso que os laços entre ambos os movimentos, outrora estreitos, têm vindo a afrouxar. O fim primeiro da Jihad Islâmica Palestiniana é a extinção do Estado de Israel. O Hamas já o não diz tão alto, mas não sabe como deixar de dizê-lo, sem evitar a debandada.

segunda-feira, maio 29, 2006

Razões de Excluir

Sempre execrei os boicotes desportivos por razões políticas que não estivessem ligadas a essa específica zona da aplicação humana, fossem contra a África do Sul do Apartheid ou Contra a União Soviética de Brejnev, pelo que não poderia concordar que vozes prestimosas da França, da Alemanha e do inefável Centro Simon Wiesenthal, tendo levantado o bedelho, conseguissem fazer triunfar o seu intento de verem proibida a presença do Presidente do Irão no Campeonato do Mundo de Futebol da Alemanha. Por muito que deteste - e detesto - o personagem.
Mas há uma razão que se prende com o Desporto e que creio idóneapara essa proscrição: estarem proibidas sequer de entrar nos estádios iranianos as Mulheres do seu País. Quem veda o acesso ao Sport deve sofrer pela mesma bitola.
Por muito que a propaganda o dê como um amante do futebol, não é o desportivismo nem sequer a competição lúdica de fruição universal que ele preza, é quando muito a habilidade que a poucos cabe. Sinto-me aliviado que ele não vá, por sua iniciativa.

domingo, maio 28, 2006

Expropriar o Perdão

Desde já quero lavrar uma declaração de interesses: sou um apaixonado pelo atletismo e guardo uma excelente recordação de Guy Drut, como Campeão Olímpico dos 110m Barreiras. Simplesmente, depois disso, tornou-se deputado e autarca da actual maioria em França e foi condenado por ter aceite um belo salário, correspondente a um emprego fictício, coisa absolutamente vedada aos agentes políticos. Sendo um queridinho de Chirac, vem agora a ser por este amnistiado.
Na sequência da decisão presidencial, o Secretário-Geral da Oposição Socialista, François Hollande, esfalfa-se a propor, quer a extinção da possibilidade de amnistiar, quer a do "Direito de Graça" presidencial, por uma exprimir a existência de uma justiça especial para uns poucos e o outro ser incompreensível, ao dar a um cidadão uma faculdade de passar por cima dos tribunais, que nenhum mais tem.
Em tese geral sou favorável a ambas as supressões. Aceito que um Rei possa perdoar. Agora, conceder tal a um eleito pode bem levar ao cálculo de riscos da ilegalidade que compatibilizem já essa saída, entre a entourage de um qualquer político proeminente, o que é perversão de monta.
Duas notas finais: ninguém se insurgiu quando Giscard d´Estaing perdoou a Althusser o assassinato conjugal, sob a alegação de que não podia ver no calabouço «um Filósofo a quem a França devia tanto». O que, na prática, significou que um pensador com créditos sobre a Gália de hoje pode matar a Mulher...
O segundo ponto é ter o Presidente Francês tentado justificar-se com o facto de uma condenação fazer Paris perder um assento na cúpula do Comitê Olímpico Internacional, de que Drut participava. Claro que é demasiado forte o odor a desculpar com o interesse público o que resulta somente de cumplicidades privadas. Nos Estados Unidos, ao menos, o locatário da Casa Branca perdoa quem muito bem quer, não tem de dizer porquê e ninguém sonha questioná-lo por isso. Será imoral, mas evita que a essa pecha se acrescente a da falsidade.

sábado, maio 27, 2006

Um Achado Cheio de Porquês

Antes de se embandeirar em arco com a identificação do reservatório natural do HIV, num cimpanzé dos Camarões, presumivelmente o ponto de partida para a macabra diáspora que empreendeu, seria bom tentar perceber como poderá isso contribuir para o combate ao flagelo; por que razão apenas uma das variantes se espalhou; e o porquê de os primeiros doentes - que não meros portadores - terem aparecido em local muito diferente; acima de tudo, a razão da sua transmissão aos humanos. Apesar de estar por confirmar, suspeita-se de que tenha sido por comer carne de animais infectados, no sentido gastronómico do termo. Parece-me extraordinário que não esteja a ser levada a sério uma hipótese alternativa, a de "comer" no âmbito de uma forma de transmissão comprovada, no caso a que resultasse da zoofilia...

quinta-feira, maio 25, 2006

Do Energético ou do Enérgico?

Raramente tenho concordado com a oratória crivada de consensualismos de José Barroso, mas a aparente intenção de, em matéria de energia, corresponder ao braço estendido da Rússia só pode alegrar-me. Há muito que defendo um incremento do intercâmbio entre a UE e Moscovo, como meio de transformar a Aliança Atlântica em algo diferente da servidão e de conter eventuais avanços sínicos sem depender da mera boa vontade da grande nação asiática. Mas temo que o caminho que se parece querer seguir, o de o liberalizar o sector, não seja o indicado em todas as situações. É compreensível que Bruxelas o queira, porque a força da Europa está nas empresas, enquanto a da Rússia crepita nas matérias-primas. Excelente, enquanto a normalidade imperar. Mas teme-se que em situação de crise a simples actuação do mercado só venha piorar a gravidade da situação. Ultra-liberais gabam-se de ser os Norte-Americanos e são um parceiro importantíssimo do Governo Putin neste ramo da economia, sem que tenham feito exigências de alteração da modalidade de oferta definida.

quarta-feira, maio 24, 2006

Novos Horizontes

Sabendo-se dos dramas que impelem a Parte Feminina da Humanidade a procurar diminuir centímetros por tenebrosas dietas, quando não com recurso a suspeitíssimos fármacos, a conclusão a que chegou a equipa da Care Western Univerity, do Ohio, dirigida por S. Patel, segundo a qual mais horas de sono tendem a significar para as Mulheres corpos mais esbeltos, pode bem operar uma revolução nos comportamentos e na saúde consequente. Menos de cinco horas diárias consagradas a Hipnos, diz o relatório, implicarão mesmo, em muitos casos, o risco de obesidade. Resta saber se, numa atmosfera megacitadina dominada pela inquietação e pela angústia, como pela viciação em comprimidos, os tratamentos de hoje não se verão substituídos pelas pílulas que assegurem o sono. Porque as fontes da intranquilidade são mais do que muitas e a saída mais fácil é sempre a que escorrega bem pela goela abaixo.

terça-feira, maio 23, 2006

Acima da Média

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Lembram-se do Homem que, num debate entre candidatos a vice-presidente, contestou o que viria a ser eleito com Bush Pai, Dan Quayle, na sua tentativa de colar-se à imagem de J. F. Kennedy? A frase entrou na História: «Senador, eu conheci Jack Kennedy: eu trabalhei com Jack Kennedy; Jack Kennedy era meu amigo. Senador, Você não é um Jack Kennedy». Herói da Guerra, congressista texano, pago a peso de ouro em cargos de responsabilidade no sector privado, viria a derrotar o primeiro Bush na eleição para o Senado, onde permaneceu largo tempo. Derrotado como "vice" de Dukakis, haveria de ser escolhido por Clinton para Secretário do Tesouro. Apesar de o Presidente da Reserva Federal ser o verdadeiro receptáculo do crédito pela situação económica florescente, a sua quota parte também é de relevar. Democrata, era pro-business e um falcão, em defesa. Apesar de dele me separarem divergências gravíssimas quanto à Vida, não posso deixar de reconhecer-lhe muito maior dimensão do que é habitual em políticos americanos.
Lloyd Bentsen faleceu ontem.

segunda-feira, maio 22, 2006

O Rato

Não estou a chamar nomes, mas a dizer o que resultou da montanha que pretendia ser o grande debate sobre o livro do Prof. Carrilho. O homem queixou-se de lhe atacarem «o carácter por não serem capazes de lhe atacar as ideias». Nem vou entrar pela qualidade destas, aceitando, por hipótese académica que não sejam ficção. Mas as pessoas votam em homens, não em ideias. E ainda há quem ache que os homens são feitos pelos respectivos caracteres. Admitiu hoje que, se avisado da filmagem, teria apertado a mão que tanto lhe repugnava. Estamos esclarecidos quanto ao carácter e sua constância. Não se pode atacar o que inexiste.
O homem insiste em que foram usadas imagens privadas, apesar de tiradas em local público, porque «teriam sido captadas pelas costas». Para mim, anda a ver demasiados filmes do Far West. Uma Câmara é uma arma, mas não é um revolver; e não há qualquer prevenção contra apontá-la a uns costados. O problema é pois de conviver mal com a respectiva traseira, em suma, de não querer ser apanhado, senão em pose.
O resto da tese parece assentar precisamente no que censura ao Eng. Carmona. Queixa-se de acusações não-provadas que diz falsas e entreteve-se a formular uma de que o acusado garantiu a falsidade. Falo do triste momento do tal telefonema do Dr. Mendes, que o interlocutor deu com imaginário.
Sobre o livro não falo, que não li. Mas parece estranho que o que principiou por ser «conspiração», a causa da derrota, tenha acabado numa «multiplicidade enorme»... de factores, imagina-se. Todos eles externos à qualidade do ex-candidato, ou falta dela.
Tudo somado, parece indicar que a única função da escrita do volume é a da máquina que mantém artificialmente vivo o que em tempos foi tomado por um político.

domingo, maio 21, 2006

Repescar Um Estado

Parece feito. As primeiras projecções dão como certa a recriação do Montenegro. O referendo parece ter resultado numa margem suficiente para divorciar-se da Sérvia, depois da separação judicial já estar consumada, no respeitante a economia e governação interna. É caso para dizer que a Europa o dá, a Europa o tira. Foram as potências pujantes que favoreceram o estabelecimento do pequeno Reino, com um único Soberano, governante um tanto platónico, embora literato, que passava mais tempo em Monte Carlo. Continuaram a ser os restos das potências, agora esgotadas pela Guerra, que determinaram o disparate pegado da Jugoslávia, feita para recompensar a Sérvia e punir a Áustria, mas arrastando os montenegrinos para a boca de Belgrado. Hoje são as impotências que formam a UE que se tentam desmentir a evidente fraqueza e ainda se dão ao luxo de mudar o conceito de maioria para 55%, em ordem ao reconhecimento da secessão. A posição fede a esforços da França para fingir que ainda pode ditar alguma favorabilidade à Sérvia, que cegamente continua a incluir na sua esfera de influência, quando é mais do que certo que ali já só influi a Rússia, dadas as exigências de julgamentos internacionais de responsáveis da guerra.
O Futuro a Deus pertence, mas temo que, neste caso, com usufruto do Diabo. Se a UE continuar na sua teima de se não aliar a Moscovo, para se autonomizar do Amigo Americano e resistir à ameaça chinesa, os pobres Balkans estão como mato seco para pasto das chamas: privados do acesso ao mar, vendo o seu ex-parceiro com uma economia modernizada e subsidiada e uma minoria sua apenas a nove pontos percentuais dos 43% de puros naturais da nova bandeira, a tentação será muito grande...

sábado, maio 20, 2006

Sobre Brasas

O novo Secretário Britânico do Interior, Reid, é uma espécie de tarentiniano Mr. Clean de Tony Blair. Quando tem uma trapalhada nos fundos, vai a correr chamá-lo para apagar as marcas. Mas a coisa parece não estar a resultar, desta feita. Depois de ter posto a andar o anterior ocupante do Ministério, por causa do escândalo dos criminosos estrangeiros ilegalmente libertados e da derrota eleitoral que motivou, o departamento continua em maré de azar. Parece ter garantido à imprensa que todas as verificações da legalidade de trabalhadores nigerianos dos seus serviços tinham sido feitas, não parecendo isso corresponder à verdade. A Comunicação Social britânica diz que o Home Office anda sobre brasas. Considerando o espírito que alastra pelo Labour, eu diria que é retrato mais ajustado ao Sr. Blair.

sexta-feira, maio 19, 2006

Uma Vez, Quando o Alguém da Grei Faz Anos

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O tom deste fantasmagórico blogue não é tão risonho como o vivente que lhe deu origem. Porém, na passagem do aniversario do meu "outro eu" blogosférico, eis um presente que ele gostará de receber. É para desopilar. Bom fim de semana.

quinta-feira, maio 18, 2006

Crónica de um Confronto Anunciado

A intervenção das forças de segurança palestinianas na faixa de gaza, visando desactivar o serviço de manutenção da ordem forjado pelo Ministro do Interior do Hamas invocou o mesmo pretexto que tinha sido dado pelos criadores deste para instituí-lo: combater o caos. As causas dele é que são diversas. Segundo o Chefe da Autoridade Palestiniana a acção dos seus adversários. Para o governo, a inacção sabotadora das forças sob controlo presidencial, que visaria inculcar uma inexistência de capacidade governativa do movimento radical. Até é possível que ambos tenham razão, mas o problema está na confusão entre organismos de estado e milícias privadas. Na contemporaníssima França também parece que um certo Ministro dos Negócios Estrangeiros de então terá dado instruções a um alto funcionário do Ministério da Defesa para procurar dados comprometedores sobre o que é hoje Ministro do Interior. Ilegitimidade material, como formal. Mas ao menos os serviços dizem-se da Nação, não de parte dela...

quarta-feira, maio 17, 2006

Barril de Pólvora

Por estas e por outras é que sou contra a entrada da Turquia na UE. Não pelo que as suas gentes são, mas pelo que muitas delas querem ser. A laicidade do País foi imposta há oitenta e tal anos com brutalidade e é hoje mantida com artificialidade. Kamal Ataturk usou a pena de morte para quem usasse o fez, em vez do chapéu ocidental. As actuais leis vedam o acesso a postos da função pública às mulheres que usem véus e aos homens com talhe de barba islâmico. Mas no segredo das cabines de voto ganha um partido religioso, só moderado na liderança e no programa, porque os militares não deixariam que fosse radical.
Quando um insuspeito advogado mata e fere juízes - o outro pólo da protecção ao laicismo - por manterem uma decisão que prejudicava a carreira de uma professora pelo uso da cabeça coberta, aos gritos de «Allah é Grande!», são os impulsos predominantes naquele povo que se soltam, até porque o governo eleito vai, prudentemente, falando no aligeiramento das restrições.
Cabe à União Europeia determinar se quer prosseguir na cegueira de ver um caso isolado no que é uma latente vontade popular. E se, independentemente do nome, podemos correr o risco de ter aquilo cá dentro.

terça-feira, maio 16, 2006

Album de Fotografias

Sabe-se que as raízes do mal são mais do que muitas e até podem ancorar numa irracionalidade puramente afirmativa do que se quer fazer passar por individualidade, quando mais não é do que ostentação da impunidade. Foi o que Kubrick filmou em «LARANJA MECÂNICA». Mas quais serão as motivações da imortalização fotográfica de sevícias não consentidas? No tristemente célebre caso de Abu Grahib ainda se poderia falar da cumplicidade erótica do casal de carcereiros que formou o núcleo dos mais notórios torcionários, o qual buscaria excitação adicional nos vexames infligidos aos prisioneiros e na revisitação deles. Mas que dizer do caso que fez parar a França, em que uma rapariga de 17 anos foi atraída a um ardil por "um casal amigo", tendo a parte masculina dele e mais quatro indivíduos violado e agredido, com requinte, a vítima e fotografado, com os telemóveis, a proeza? Ela encontrava-se bem bebida e acordou, no dia seguinte, com as marcas no corpo, as roupas esfarrapadas, mas sem memória do sucedido. Entretanto as imagens tinham sido enviadas à família, ao ex-namorado e a toda a roda íntima dela.
Nada parece apontar para vingança, já que nenhuma ruptura difícil parece para tanto apontar. Em relação ao caso da indisciplina militar norte-americana nota-se a diferença de a prioridade da exibição ser dada à vítima, que não aos agressores. De alguma maneira, a conduta destes franceses, dada a elaboração respectiva, e pela exibição para o exterior de que se rodeou, aproxima-se da arte, enquanto a comunhão restrita das imagens dos islâmicos humilhados não ultrapassava a perversão. A ser assim, tenho-a por muito mais perigosa.

segunda-feira, maio 15, 2006

O Coração Tem Razões...

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Uma investigação inglesa diz que três em cada quatro enfartes masculinos ocorridos durante as relações sexuais acontecem nas que se desenrolam fora do matrimónio. E o Prof. Fernando Pádua dá como explicação do facto poder ficar a dever-se à vontade que os vitimados terão sentido de provar capacidades, perante parceiras irregulares, presumivelmente mais jovens. Devo dizer que, como explicação psicológica, me parece ainda mais rebuscada do que o habitual. Não brincarei, sugerindo que há muito maior número de relaçoes extra-conjugais e, após uns anos, até de frequência dos actos, logo, de oportunidades para o desastre. O que me parece é que a explicação mais natural se prenderá com os níveis de excitação decorrentes de uma relativa novidade; e não com qualquer interiorizada prova de fogo de esforço...

domingo, maio 14, 2006

A Forma do Ataque

Olho para o período negro que o meu querido Brasil atravessa, com ataques a esquadras e rebelião geral ordenada a partir de prisões. Curioso é que tenha sido a mesmíssima razão que determinou a criação da organização criminosa Primeiro Comando da Capital, há treze anos, e que motivou todo o sangue da actualidade: a transferência de elementos de topo dessa mafia para presídios mais duros. Desde logo, penso que o êxito da monstruosa associação é factor específico do gigantismo da metrópole paulista, à semelhança das coordenações de gangs que vivem dos negócios das drogas e das armas em New York, ou Los Angeles. Por isso me parece pouco compreensível que o Prof. Marcelo tenha estranhado que o fenómeno tenha rebentado em São Paulo e não no Rio, onde, aliás o principal sindicato do crime, o Comando Vermelho, está decadente. O primeiro tem características urbanísticas e de costumes dos habitantes mais próximas das grandes urbes norte-americanas.
Como não subscrevo à hipótese de receio das autoridades brasileiras de terem de enfrentar uma guerrilha urbana, como aventou o Ilustre Analista das «Escolhas...». Se alguém tem know how de combate a essas insurreições é a instituição militar-policial do País Irmão, que tanto êxito obteve durante o regime militar. E desta feita não parece que se tenha de chegar ao extremo do recurso aos Esquadrões da Morte. Aqui não se enfrentam entusiastas ideológicos, nem sequer uma extrema juventude inquieta, mas sim recrutados a contragosto a quem é exigido o pagamento de dívidas em dinheiro, ou em realização de atentados. É gente transida de medo de ser morta e desconfiada de se ver traída, fruta madura para colaborar...

sábado, maio 13, 2006

A Sinceridade na Escrita


«Rendre l´Ame», de Robert Vigneau.
O alimento que o escrevedor dá a quem lê só é oferta de actividade transformadora, pois a matéria prima foi, pelo menos objecto de digestão sua. Descobrir-se é, por conseguinte, descerrar as cortinas da complexidade própria. Mas na escolha do ângulo que se oferece já sobressai o truque e agoniza a pureza da verdade sem filtros

sexta-feira, maio 12, 2006

As Evasões

A mensagem emanada de um afegão evadido de uma prisão norte-americana que integraria a Al-Qaeda pode, paradoxalmente, ajudar mais os seus frustrados captores do que o êxito em conservá-lo atrás das grades. Por um lado, poderão os funcionários do Sr. Bush dizer que não eram assim tão duras as condições, já que ele conseguiu escapar. E com as ameaças dirigidas a Dinamarca França e Noruega, em razão do obsessivo rancor produzido pelas célebres caricaturas, há a eventualidade de gerar aliados pouco previsíveis para o país que suporta o ónus de combater uma ameaça real. Mas não entre os intelectuais. Esses até prefeririam uma criativa versão em que a CIA teria lavado o cérebro do fugitivo, para o transformar em arma de propaganda. A força do ódio é a suprema libertadora do masoquismo. Costuma ser o ódio de si. Mas, quando o outro é mais do que um, solta-se uma aceitação total do que faça aquele que não é o inimigo eleito.

quinta-feira, maio 11, 2006

O Falinhas Mansas

Não li o livro do Prof. Carrilho, pelo que não falarei sobre ele. Vi a entrevista que deu a Judite de Sousa e sobre ela direi alguma coisa. O caso não merece muitas linhas. O tom foi de um seráfico artificialismo que só convencerá quem quer ser convencido. Sem uma única prova, disse-se um perseguido pela Comunicação Social, da qual teria sido o candidato a abater, ao contrário do seu adversário, que teria sido o protegido. Não corresponde à memória que guardo do lançamento da campanha, em que o Eng.º Carmona era dado como um técnico sem perfil para liderar e todo o escrevinhador rejubilava com a entrada em liça do desafiador de Guterres. O problema é que tanto meteu os pés que foi impossível protegê-lo.
Dos dois episódios emblemáticos, não conseguiu dizer mais do que ter a instrumentalização das imagens do filho bebé sido «um vídeo global» e que ninguém se indignou por ver um neto de Cavaco com as cores do familiar, num comício. Sou contra qualquer utilização de crianças em política, mas é demasiada desonestidade intelectual comparar uma presença numa apoteose comicieira a um grande plano da mãe perguntando ao rebento de um ano e pouco se ia votar «no papá»...
Quanto à recusa do aperto de mão, diz que não sabia estar a ser gravado, o que não é mais do que um elogio da falsidade, ao admitir que agiria de outra maneira, se o soubesse. Que era uma questão privada, o que se não pode aceitar, por ser a sequela normal de um debate público. E - esta é linda - que tudo «tinha ficado escuro». Pois ficou, para ele, mas muito mais claro, para os eleitores.
O resto é um constante duplo padrão, em que se permite insultar sem piedade os que com ele se desentenderam, contrapondo uma ultra-sensibilidade a tratamentos jornalísticos críticos de muito menor violência.
O problema político do Prof. Carrilho é ser como é. E não me parece que, apesar de operarem milagres, haja livros capazes de o solucionarem.

terça-feira, maio 09, 2006

Curto e Grosso

A notícia de que a China e Cuba acabam de ser eleitas pelos membros da Assembleia Geral da ONU para integrarem o novo Conselho dos Direitos Humanos, que vem substituir a infausta Comissão de Genebra, mais não é do que o alastramento ao âmbito internacional da doutrina do Ministro português Alberto Costa, de abrir a magistratura aos que até agora eram dados como leigos na especialidade...

segunda-feira, maio 08, 2006

Dignidade

A Actriz Maggie Gyllenhaal estava prevista para interpretar, em «WTC», o novo filme de Oliver Stone, o papel da parte feminina de um casal de polícias que, na prestação de socorros às vítimas, ficou encurralado na estrutura que se desmoronava. A história é verídica
e o par, que seria recriado por ela e por Nicholas Cage, sentiu-se ferido por a Artista ter, então, afirmado que aos EUA cabia parte importante da responsabilidade da situação que propiciara o ataque. Veio emendar a mão, dizendo que «foi momento de grande heroísmo». Mas acrescentou que se eles não se sentissem confortáveis por a verem no elenco, estaria na disposição de sair, imediatamente.
Vejam as diferenças: Aquando do tristemente célebre caso das caricaturas bombásticas, um Ministro de Portugal também teve a infelicidade de atirar com as culpas para cima do Ocidente. Todavia, perante a reprovação generalizada, revelou a ombridade de pôr o lugarzinho ao dispor? Qual! Quando declarações suas de vitimização permitiram uma nesga de interpretação de prenúncio de saída, fez uma chinfrineira, agarrando-se à cadeira com o que tinha e o que lhe faltava, invectivando os jornalistas.
Pena que a distribuição dos desempenhos tenha sido esta.

domingo, maio 07, 2006

Sinuosidade

O Sr. Berlusconi não tem emenda. Previu duas situações possíveis para o futuro próximo da política italiana, ligando uma à outra:
1- A eleição parlamentar de um Presidente da República oriundo da Esquerda maioritária, a que se opõe.
2- Como consequência e represália, nessa eventualidade, deixar de pagar impostos, atitude que qualifica de «greve fiscal».
Motivo de gargalhada - é a primeira das hipóteses descritas que ele qualifica de «proposta indecente».
Claro que aquilo por que passa é o pavor da perda de imunidade que faça as suas falcatruas e negociatas serem julgadas. Primeiro propôs-se para a presidência, que era meio de a prolongar. Agora, tenta pôr no Quirinal um lugar-tenente, na perspectiva de um perdão presidencial.
O homem não tem emenda. Mas aposto que, por cá, muita gente o vai ver como proveitoso exemplo a seguir; quando elegerem um presidente doutra cor, cada um se isenta a si próprio do IRS. Copiamos sempre os outros, ou não?

sábado, maio 06, 2006

Palha Ardida

Há, pelo nosso burgo, a sensação de que Jack Straw era um joguete dos americanos no que ao Médio Oriente toca, pelo que não deixa de ser irónico que tenham sido os compatriotas do Tio Sam a fornecerem a ocasião para o crime da sua defenestração ministerial. Não já pelo Iraque, em que tivera papel secundário, face ao conjunto protagonismo do PM e do Secretário da Defesa da altura. Sim por, nos últimos tempos, ter vindo a negar peremptoriamente, a intenção e até a possibilidade de os EUA atacarem o Irão, quando eles estão danadinhos para o fazer, para alívio de todos nós.
De nada lhe valeu o calor do relacionamento com a Menina Rice, e tudo deitou a perder o esfriamento da ligação ao Tony de Downing Street, 10. Anunciando transferir, precocemente, a sua lealdade do actual Chefe de Governo para o mais do que esperado Sucessor, Gordon Brown, ficou com um punhado de coisa nenhuma nas mãos. O ainda leader não gostou de que lhe antecipassem o óbito político. E o Chanceler, quer dizer, o responsável pelas Finanças, cauteloso como os escoceses da circunscrição que representa, não se entusiasmou com a adesividade, continuando a ver nele talvez o único rival perigoso que lhe pudesse dar uma facada.
A ex-Secretária do Ambiente, a veterana Sr.ª Beckett é a nova titular dos Estrangeiros. Vem dada como anti-americana e eurocéptica. Veremos se em alguma coisa muda a condução política. Muitas vezes, para negarem a fama que os precedeu, os nomeados tornam a sua acção no contrário do que era esperado. E há outro pormenor: o eurocepticismo e o anti-americanismo, no Reino Unido, não costumam conviver no mesmo cérebro...

sexta-feira, maio 05, 2006

Mandato Indeclinável

Nunca pensei concordar com uma posição do PCP no plano de enformação política, mas subscrevo totalmente a invectiva de Jerónimo de Sousa contra a promiscuidade parlamentar, na terminologia adoptada, mormente no que toca às sociedades de advogados. Penso que quem escolhe representar a Comunidade tem de, em contrapartida, renunciar a representar a comodidade de várias fontes de rendimento do trabalho. Ou tudo, ou nada. Fosse a actividade de deputado exercida a título gracioso, ou simbolicamente agradecida com inócuas senhas de presença,e acharia perfeito que SEXªs. embolsassem o que, dentro da legalidade, conseguissem abichar por fora. Assim é que não, pois, fatalmente se dividirão entre os vários compromissos, com prejuízo para o público que é aquele que todos deve preocupar.
Mas também dou razão à proposta socialista de impedir as substituições injustificadas pelos seguintes colocados das listas. O abuso desta prática tem levado à dissolução da responsabilidade que deve estar presente no vínculo de um eleito aos que o colocaram em São Bento. As coisas só sofreriam melhoramento de vulto com introdução de círculos uninominais a uma volta, abertos a independentes e com desencadear de eleição parcelar em impedimento. Tudo o que dilui em listas é abstracção, logo consagração do vício e impossibilidade de exigir prestação de contas.
Um último ponto: sou, absolutamente, contra a concessão de um subsídio de deslocação aos representantes de um círculo eleitoral que residam noutro, como veio à baila com Raul dos Santos. A própria Constituição se opõe à sua existência, na medida em que diz que os eleitos por cada círculo representam a totalidade do País. Mas mesmo que assim não fosse, o actual regime deveria prever uma ligação efectiva de um político ao seu eleitorado, em vez de facilitar desvios desse ideal.

quinta-feira, maio 04, 2006

O Inimigo do Interior

Quem, anos a fio, viveu o combate isolado de S.A.R. o Senhor D. Duarte de Bragança e do Prof. Adriano Moreira em prol do termo da ocupação e ulterior tentativa de anexação de Timor Leste vê, necessariamente, com melancolia a debandada populacional para a montanha. As relações do Homem com os montes sempre foram eivadas de um misticismo natural, considerando a majestade de um relevo que permitia maior proximidade do Céu. Mas é curioso que durante o interlúdio de domínio da ex-colónia holandesa, com difusão de língua e religião diferentes que transformaram as locais em factores identitários, quem procurava refúgio nos cimos altaneiros era a pequena parcela disposta a resistir activamente, não massas significativas em êxodos motivados pelo pânico.
O que faz concluir que as dissensões internas podem ser mais de temer do que a conformação a um invasor. É que a dureza não mata tanto como a desordem. E faz da opressão coisa risível, quando comparada com a incerteza.

quarta-feira, maio 03, 2006

Votos e Vidas

Nada teve a ver com a rejeição da pena de morte. Nem com a diferente penalização da tentativa ou do crime consumado. O júri que entendeu condenar Zacarias Moussaoui a prisão perpétua e não à morte, para a qual era requerida a unanimidade, achou, simplesmente, que a participação do inculpado fora relativamente menor e sem conhecimento abrangente de todo o pormenor dos ataques de 11 de Setembro. Uma linha de interpretação pode embandeirar em arco por um júri ter conseguido resistir às pressões das sondagens de opinião que pretendiam ver aplicada a pena máxima, como ao tom desafiante do condenado. Mas é possível opor-se uma força muito maior, que talvez também tenha influído: o visionamento das comunicações televisivas dos leaders da Al Qaeda pode tê-los convencido de estarem todos os autores morais na Ásia. E o repetido bombardeamento com as imagens dos embates dos aviões no WTC tê-los-á feito acreditar que todos os autores materiais pereceram, estando perante um mero cúmplice. Donde, retiro a conclusão que anima a minha velha teima: nada de jurados a decidirem processos criminais. Só alguém com uma preparação e carreira que aumente as imunidades a influências espúrias - um colectivo de juízes.

terça-feira, maio 02, 2006

A Crise da Leitura

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Este episódio nunca existiu. D.Quixote lendo a um atento Rocinante. Se o tivesse feito, talvez não tivesse incorrido na loucura de transplantar para a Vida as aventuras das novelas de cavalaria que deglutira. Como também no nosso tempo e lugar, ter a quem possamos dar conta do que lemos e sentimos é condição primeira da manutenção da sanidade psíquica. Mas todos dizem que há falta de leitores. E não há sombra de dúvida de que a azáfama e as exigências profissionais, acrescidas do bulício citadino, não deixam margem para a abundância de ouvintes. É a crise que bate à porta. A mental, claro.

segunda-feira, maio 01, 2006

Branquear, Patear

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Hoje não há análise, mas impressão pura. Da cimeira de Havana, no dia em que Cuba, para a mente de quem a governa, deixou de ser uma Ilha. Castro, em estatura, não se pode comparar a Chavez. E este, por sua vez, está muito acima de Morales. Fidel precisava de branquear o comunismo, muito conspurcado pelo isolamento. Assinou o pacto com o Diabo, ou melhor, com dois - um oficial populista saído das forças de elite de um país com a arma petrolífera, qual Mefistófeles suficiente; e com o parente pobre. Este, um criminoso comum ligado ao narcotráfico, necessitava de enlace nobilitante com um homem famoso por defender ideologia e com o vizinho de posses. E, no meio, ao Presidente Venezuelano convinha sacudir a ganga do oportunismo, através da aliança com um ultra da propria coerência, como da solidariedade para com uma nação exaurida. Não se poderia pensar em exportar uma nova revolução, pois não existe unidade doutrinal entre os três. A argamassa que os unisse só podia residir no anti-americanismo. Em ódios velhos cheios de razões se estriba agora a sementeira de ilusões com fachada de política externa; mas cuja função primeira será consolidar o poder, internamente.